Da sensação de estar lá e não estar

Existe um movimento esquisito no mundo: o das pessoas que vivem penduradas no celular mesmo quando deveriam prestar atenção ao mundo ao redor.

Pra ilustrar com um exemplo: eu pego, diariamente, pra ir pro trabalho, uma barca. Pra quem nunca andou de barca, existe um saguão de espera. Atingida a lotação máxima da barca, a gente é liberado pra ponte de embarque da barca que vai sair naquele horário. Até aí, normal. O celular cumpre a função do jornal e da revista que você vai ler enquanto espera, certo?

Não.

Tá todo mundo no whatsapp. E não é só enquanto espera: é andando também. Embarcando. É preciso desviar das pessoas, que andam mais devagar enquanto digitam. As pessoas não param de digitar nem andando.

O whatsapp permite a conversa entre duas pessoas. Se eu estou trocando mensagens com alguém durante o meu tempo ocioso (15 minutos no ônibus, 20 esperando, 20 na própria barca), eu aviso “tou na rua, nos falamos mais tarde”. Ou nem aviso, mas espero que o outro entenda que não estou o tempo todo conectada e que a conversa pode continuar a qualquer momento – em 99,9% dos casos, não há urgência alguma. Mas faço um esforço para estar ali, para viver o momento e prestar atenção à minha volta.

A rotina já é tão multitask que, em algum momento, é importante dedicar sua plena atenção para alguma coisa

Para além da questão óbvia da segurança ao atravessar a rua ou tropeçar nessas calçadas irregulares da cidade, há a questão do “estar lá”. A rotina já é tão multitask que, em algum momento, é importante dedicar sua plena atenção para alguma coisa. Tanto melhor que seja para a sua segurança e para o convívio com outros seres humanos, ainda esse convívio seja apenas uma fila.

Com isso, não quero dizer que sou contra tecnologias. Eu mesma vivo pendurada no celular. Esse post foi todo escrito no meu Sony Xperia e publicado pelo aplicativo do WordPress usando a conexão 3g da Vivo, durante o trajeto de barca, veja você (o desenho foi feito à mão, durante a viagem de volta). Acho muito impressionante que um aparelhinho desses funcione como um escritório de bolso – e, mais do que ficar de bate-papo, uso e abuso do bichinho pra ser uma pessoa mais produtiva, pra criar, pra registrar pensamentos, pra compartilhar com os amigos meus achados.

Mas a hora de andar é a hora de andar. A hora de prestar atenção na fila é hora de prestar atenção na fila. A hora de trabalhar é hora de trabalhar. O momento é para ser vivido. Sempre. Guardar o celular no bolso não vai fazer cair o mundo. Lembre-se de que 99,9% das vezes, o chat não é caso de vida ou morte – preste atenção no que você está fazendo. É bom. Dá uma sensação de plenitude por estar ali. Quando foi a última vez que você se sentiu assim?

Cara.. Guarda isso.

E depois vem aqui e me conta como foi viver o momento. Eu, pelo menos, me sinto autossuficiente pacas cada vez que percebo que estou entrando na neura da conectividade e paro antes de cair nessa.

Aí começo a prestar atenção nos plec plec plec dos sapatos na rua, nos cheiros não necessariamente bons – mas reais – da cidade, onde bate sol para fugir do frio, se tem alguém buzinando, se tem pássaros cantando, no gosto do mate e na textura do pão de queijo, e me sinto incrivelmente ali.

E você?

Consegue?

Vem aqui e me conta.

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Publicado em julho 24, 2014, em Blog e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Pois é, Lia, isso tbe me irrita muito. Conheço bastante gente que é incapaz de largar o celular, em qualquer momento. Eu, mesmo sendo super fã é adepta da tecnologia, mantenho meu 3G desligado o dia todo, só ligo qdo realmente preciso. Por isso nem tenho whatsapp. Acho desnecessário um aplicativo de chat ligado o dia todo pra falar futilidades. Quem consegue trabalhar? Viver então, nem pensar.
    É o mal do século.
    Bjo.

    • Pois é. Eu tenho pra falar com uma parte da família que mora longe, mas confesso que se recebo whatsapp, só olho quando eu bem entendo. Porque é isso, né? A tecnologia precisa servir aos MEUS interesses, não me deixar disponível pra todo mundo a toda hora.

  2. Não sofro desse mal. Detesto bater-papo via whatsapp e afins, a não ser que a pessoa esteja a quilômetros de distância e fora do alcance de um telefone. Gosto de ouvir a voz das pessoas, quando converso. Coloquei o whatsapp no meu celular porque nos cursos que faço o pessoal usa para confirmar horário de reunião, tratar da bibliografia, essas coisas. Mas odeio quando alguém posta figurinha ou textos enormes (a tela do celular é pequena, gente… Manda por e-mail, eu leio no meu notebook.)
    Celular em cinema, espetáculos e afins… Para esses, minha solução seria colocá-los todos no paredão e fuzilar. Sem dó.
    Em fila, só abro o celular se eu estiver mal-humorada, sem vontade de puxar assunto com ninguém… E ainda ando com livros e revistas debaixo do braço, não gosto de ler texto no celular (sabe o tamanho da tela, pois é…)
    Na rua, nem pensar. Vai que eu tomo um tombo, daqueles homéricos que fazem a gente ficar toda ralada por um semana… não, obrigado.
    Vício, apenas o Facebook. Mas um argumento a meu favor é que uso a rede social para socializar mesmo. É por meio dela que mantenho contato com algumas pessoas queridas e utilizo muito para marcar encontros de verdade: cinema, café, barzinho…
    Entendo bem quando você fala de “estar presente”. Gosto dessa sensação, também. Também não sou daquelas que ouvem música no celular por onde andam Confesso que gosto dos sons das ruas, por mais ensurdecedores que sejam. Andar por aí, olhar a paisagem… Aqui em Brasília, seja lá onde você estiver, há um céu lindo de morrer e, nessa época do ano, ipês floridos de todas as cores… E se calhar de ser final de tarde, você ainda é presenteado com um pôr-do-sol de tirar o fôlego.

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